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Augusto de Campos Décio Pignatari Haroldo de Campos
poemóbiles- Augusto de Campos
beba coca-cola- Décio Pignatari
Se- Haroldo de Campos
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Argelina, na visão do Argenor, era um saco!
Sempre reclamando das coisas.
-Não, Argenor, a toalha tem que ficar dobrada pra dentro!!
-Aí não Argenor, corta na pia pra não fazer sujeira.
-Fechou a tampa Argenor?
Vinte anos de casado!!
Vinte anos de reclamação!!
Ninguém merece!!
Se pudesse, sumia.
Separar? Nem pensar.
Uma coisa que não dá pra se livrar é de ex-mulher.
Não ia pagar pensão pra bruaca. Ainda mais
sabendo que Argelina pegava dinheiro escondido da
sua carteira e guardava na poupança.
-Pelamordedeus Argenor!! Olha onde você deixou o sapato!!!
Se pelo menos alguma alma bondosa seqüestrasse a infeliz.
- Como não pensei nisso antes? Seqüestro!!
Vou me se-qües-trar!!!! Dou um susto na desgraçada,
recupero o dinheiro da poupança e volto como um herói de guerra.
Tratado a pão-de-ló!!
Naquela noite não pregou o olho planejando o próprio rapto.
Levantou mais cedo do que o normal.
Mais alegre do que o normal.
Mais rápido do que o normal.
Enquanto Argelina foi ao banheiro, colocou três
cuecas e duas camisetas na sua malinha executiva.
-Vai que a negociação é demorada, pensou .
Tomou café, resmungou um adeus e saiu deixando
a mulher a reclamar dos farelos de pão na cadeira.
No meio da tarde o telefone tocou. Argelina odiava atender.
O telefone insistiu. Argelina atendeu de mau humor.
-Alô?
-Seqüestramo seu marido!
Era o Argenor fazendo voz rouca num orelhão, com o fone
enrolado num saquinho de supermercado pra não ser reconhecido.
-Quem?
-Seu marido!
-Que marido?
-O Argenor!!
-Seqüestraram o Argenor?
-É! E queremo vinte mil pra libertar ele.
-Ele tá vivo?
-Tá ! Mas se chamá a polícia nóis apaga ele!!
-Tá bom, moço, eu pago.
Argenor sorriu e pensou convencido: – Ela me ama!!
-Mas eu quero uma prova de que ele tá vivo!
-Quer falar com o cara?
-Não! Você pode querer me enganar imitando a voz dele.
-Então o quê?
-Quero o dedo do meio da mão dele. O que tem
uma pinta com pelinho. Manda aqui pra casa que eu pago.
E desligou o telefone.
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Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência.O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor.Só as saudáveis.
Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Só aceita relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão ou falso.
“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e o dá se quiser.
O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é esperto. O gato é zen. O gato é Tao. Conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor, mas se lhe dá, então o exige.
O gato não pede amor. Nem dele depende. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas se comporta como um lorde inglês.
Detalhe do texto de Artur da Távola
(03/01/36-09/05/08)
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